Empresas investem em ferrovias para otimizar logística
Deixado em segundo plano por várias décadas, o transporte ferroviário vem reconquistando espaço nos últimos anos
Deixado em segundo plano por varias décadas, o transporte ferroviário vem reconquistado espaço nos últimos anos, puxado pelo crescimento econômico do País e pela busca de competitividade das empresas. Um dos motores desse avanço são investimentos de empresas de setores como o sucroalcooleiro, celulose e mineração, que têm no modal uma alternativa mais barata em relação ao uso de rodovias.
Os investimentos do setor sucroalcooleiro em ferrovias ilustram bem este cenário. Duas gigantes da área vão investir R$ 3,3 bilhões em infraestrutura para reduzir custos e agilizar o escoamento da produção do interior ao litoral de São Paulo. Até a safra de 2014 da cana-de-açúcar, a Rumo Logística, do grupo Cosan, planeja operar um novo sistema logístico de R$ 1,3 bilhão, enquanto a Copersucar pretende aplicar outros R$ 2 bilhões até 2015.
Entre as principais metas desses investimentos está a redução de custos com o transporte rodoviário, que envolve pedágios, variações de custo de frete, filas de caminhões nos portos e, em algumas vezes, gastos com estadia, uma multa paga às transportadoras em casos de impossibilidade de descarregar o caminhão no horário programado. “A ferrovia nos possibilita vender a nossos clientes uma opção economicamente viável, além da possibilidade de eles planejarem melhor sua produção e logística. Quando a operação depende exclusivamente do transporte rodoviário, ficamos reféns do preço, que sobe muito, principalmente durante a safra”, explica o presidente da Rumo Logística, Julio Fontana.
“Do montante de R$ 1,3 bilhão que integra o projeto de quatro anos da Rumo, R$ 590 milhões de reais serão voltados à reativação de trechos ferroviários inoperantes e em duplicação, principalmente no trecho que liga a cidade de Itirapina a Santos. Outros R$ 402 milhões foram investidos na compra de vagões e locomotivas de alta performance que capacitam a Rumo para o transporte de mais de 11 milhões de toneladas de açúcar por ano. Também serão aportados R$ 336 milhões para obras de infraestrutura, construção e ampliação de terminais em Santos e no interior” relata o executivo.
Outra vantagem desta troca é ambiental, contribuindo para a diminuição da emissão de gases na atmosfera. Os investimentos da Rumo prevêem uma redução de 30 mil caminhões por mês nas estradas paulistas. Segundo Paulo Roberto de Souza, presidente da Copersucar, somente a inauguração do projeto Pêra Ferroviária, em Ribeirão Preto, em março deste ano, retirou 42 mil viagens de caminhões por ano. A empresa também atingiu o escoamento de metade da produção ao porto de Santos pelo modal ferroviário e pretende aumentar esse percentual para 70% nos próximos cinco anos.
Souza explica como é dividido o investimento em ferrovias feitos pela Copersucar: “o investimento nessa área é em material rodante (trens e vagões), terminais multimodais e armazenagem. A recuperação da malha é de responsabilidade da concessionária. No caso do recém-inaugurado terminal multimodal de Ribeirão Preto, por exemplo, a Ferrovia Centro-Atlântica (concessionária do trecho) investiu na recuperação da malha, que pertence à União, enquanto a Copersucar investiu no desvio e na armazenagem, recepção e expedição do açúcar”.
Companhia de celulose também busca o modal
Ao realizar estudos de viabilidade de uma nova unidade, a Braxcel, indústria de celulose controlada pelo Grupo GMR, buscou um local para a construção da fábrica que atendesse às exigências de produção, mas também de logística. Após dois anos de pesquisa, o local escolhido foi Peixe, no sul do Tocantins, que além de ter capacidade para produzir 1,5 milhão de toneladas por ano de celulose de fibra curta branqueada, fica muito próximo a duas ferrovias: a Norte-Sul, administrada pela Vale, e a futura Oeste-Leste, da concessionária Valec.
Com previsão de término para 2018, a Braxcel já negocia maneiras de ligar sua sede a alguma das ferrovias. Será preciso construir um ramal de 58 km para ligar a fábrica à ferrovia Norte Sul, mas há também a possibilidade futura de que o escoamento da produção seja pela Oeste-Leste – ainda em construção –, que fica a apenas 5 km. Segundo o diretor financeiro do Grupo GMR, Cláudio Ribeiro, “já há um entendimento assinado com a Vale para utilização da ferrovia, com tarifa fixada e agora estamos na discussão sobre a construção deste ramal”. Os 58km terão um custo total de R$450 milhões, incluídos gastos com vagões.
Três empresas são responsáveis pela maior parte do transporte ferroviário de cargas hoje: Vale, América Latina Logística – ALL e Companhia Siderúrgica Nacional - CSN. Dos 28.314 km de estradas de ferro em território nacional em 2008, as três empresas possuem juntas 26.228 km – ou 92,6% do total, segundo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgado em 2010.
Um dos grandes projetos da CSN neste ano é a ferrovia Transnordestina, que atravessa o sertão, ligando os portos de Suape (PE) e de Pecém (CE). Ao total, a ferrovia terá 1.728 km, sendo que 852 km estão em obras no momento. Segundo o presidente da Transnordestina Logística (TLSA) – empresa controlada pela CSN e responsável pelo empreendimento – Tufi Daher, “o modal ferroviário no Nordeste propiciará, a médio e longo prazo, a melhor opção logística para expansão dos setores de mineração e agricultura naquela região”.
A mineração, por exemplo, demanda uma capacidade de transporte de cerca de 15 milhões de toneladas por ano nos Estados do Piauí e de Pernambuco. Já o agronegócio movimenta em torno de cinco milhões de toneladas de grãos por ano. Prevista inicialmente para 2010, a obra foi adiada e agora é esperada para 2014. O custo total do investimento previsto pela CSN é de R$ 5,4 bilhões, sendo que R$ 3 bilhões já foram gastos. “O atraso, seja por desapropriações, licenças ambientais ou interferências diversas, impacta fortemente no retorno do projeto. Uma ferrovia deste padrão tem um investimento alto, custo futuro baixo e o retorno é de longo prazo”, justifica Daher.
Cartola – Agência de Conteúdo
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